2018: Revisitando uma proposta de uma Comissão do Vaticano sobre questões da juventude

Às vésperas do Concílio Vaticano II, o Mons. Joseph Cardijn, fundador do movimento Juventude Operária Católica, sugeriu ao Papa João XXII a criação de uma comissão pontifícia para tratar dos problemas enfrentados pelos jovens em longo prazo.

Não foi a primeira vez que o fundador belga do movimento Jeunesse Ouvrière Chrétienne (JOC) – Juventude Operária Católica – tinha buscado influenciar o curso do Concílio.

A reportagem é de Stefan Gigacz, publicada por La Croix International, 20-03-2018. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Em uma audiência inicial de 1960 com o Papa João, enquanto as preparações estavam em andamento, ele já propôs a publicação de uma encíclica para marcar o 70º aniversário da encíclica social de 1891 do Papa Leão XIIIRerum Novarum.

Para a alegria de Cardijn, se não surpresa, o Papa adotou sua sugestão com entusiasmo, o que levou à publicação de Mater et Magistra em 1961, que se tornaria a encíclica mais citada pelo Concílio na Constituição Pastoral Gaudium et Spes sobre a Igreja no mundo de hoje.

Ainda mais significativo, tanto do ponto de vista do Cardijn como do Vaticano II, foi o fato de que a encíclica (§236) também incorporou referências ao icônico método “ver-julgar-agir“, preparando o terreno para a sua integração em documentos conciliares, como o Decreto sobre o Apostolado LeigoApostolicam Actuositatem e Gaudium et Spes.

Animado com o sucesso, mas também preocupado com a direção que a preparação do Concílio estava tomando, ele buscou concentrar seus esforços em sua área de maior especialidade e experiência, trabalhando com os jovens.

Os jovens enfrentavam muitos problemas, escreveu ele ao arcebispo Dell’Acqua, a começar pela “sexualidade”, sua “missão e vocação” na vida, seu “trabalho e profissão ou comércio”, bem como “preparação para o futuro pessoal, familiar, social, cultural, cívico e religioso”.

Igualmente importantes eram as questões de “ensino e educação”, os “movimentos e organizações de jovens”, bem como as “responsabilidades dos pais” (e outras instituições), para não mencionar a “pressão da opinião pública e publicidade”.

Na realidade, os jovens já estavam “enfrentando problemas de adulto”, observou Cardijn. No entanto, apesar de jovens, eles precisavam aprender a “resolver os seus próprios problemas com a ajuda dos adultos, que trabalhavam com eles”.

Não ajudar os jovens nesta tarefa provocaria “uma catástrofe irreparável”, advertiu, em seu estilo caracteristicamente apocalíptico.

Felizmente, argumentou, a abertura do Concílio Vaticano II foi uma “oportunidade providencial” para a Igreja despertar ou “sacudir” as instituições sociais, a opinião pública bem como os próprios jovens para a necessidade de agir, escreveu ao arcebispo Dell’acqua.

Embora a proposta de uma comissão pontifícia não tenha acontecido, as propostas de Cardijn não foram totalmente ignoradas. O §12 de Apostolicam Actuositatem mais tarde incorporou muitas de suas preocupações e Gaudium et Spes continha mais de uma dúzia de referências aos jovens.

E, no seu último dia, o Concílio emitiu uma Mensagem aos Jovens, embora não fosse exatamente a que Cardijn esperava.

Como acontece o inovador “pré-sínodo” do Papa Franciscoreunindo 300 jovens em Roma esta semana, em preparação para o encontro do Sínodo dos Bispos sobre “os jovens, a fé e o discernimento vocacional” em outubro, parece oportuno recordar as reflexões e as propostas de Cardijn.

Por um lado, é significativo que o sínodo (novamente) tenha adotado o método de Cardijn em sua preparação, como fica claro pela estrutura de ver-julgar-agir do documento preparatório.

Por outro lado, é impressionante notar o contraste entre a listagem direta e factual de Cardijn dos problemas enfrentados pelos jovens e uma hesitação aparente demonstrada pelo Secretariado do Sínodo.

Ainda que, por exemplo, ele não temesse colocar “sexualidade” no topo da lista de questões relativas aos jovens, o sínodo não aborda o problema em sua primeira seção, “ver”, sobre “Jovens no mundo de hoje”. Apenas na terceira seção, “agir”, é que o termo aparece, quase como uma reflexão tardia.

Questionado por jornalistas, o secretário-geral do sínodo, cardeal Lorenzo Baldisseri, tentou explicar o aparente descuido.

“Não nos referimos a (sexualidade) porque não queríamos focar a atenção nisso”, disse a repórteres em janeiro. Caso contrário, os jornalistas podem “acentuar o foco” nessas questões, explicou, sem muita convicção.

Sem dúvida, os jovens que participam do pré-sínodo vão garantir que todas as questões relevantes sejam levantadas e discutidas.

Mas é óbvio que um evento isolado não basta para articular respostas para todas essas questões.

Talvez tenha chegado a hora do pré-sínodo e o sínodo revisitarem a proposta original de 1962 de Cardijn de criar uma comissão pontifícia para abordar essas questões em longo prazo.

Como ele escreveu naquele ano, essas questões são “de tal importância para a Igreja e para o mundo no futuro” que é preciso fazer todo o possível para desenvolver “um programa de educação e ação que forme os jovens para abordar essas questões que eles enfrentam na vida tanto agora como no futuro”.

Reconhecendo seu importante trabalho com Juventude Operária Católica, em 1965 o Papa Paulo VI tornou o padre belga, na época com 82 anos, cardeal. O cardeal Cardijn morreu dois anos depois, mas seu legado com certeza permanece vivo.

SOURCE

Stefan Gigacz, Revisitando uma proposta de uma Comissão do Vaticano sobre questões da juventude (Instituto Humanitas Unisinos)

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